É comum o importador da China passar por isso: fecha uma cotação de frete em um mês e, no mês seguinte, o mesmo container custa o dobro. Não é falha de comunicação do seu fornecedor nem aumento arbitrário do armador. É a lei da oferta e da procura funcionando exatamente como deveria, e entender essa lógica é o que separa quem planeja importação de quem apenas reage a ela.
O frete marítimo não tem tabela fixa
Diferente do que muita gente pensa, não existe um “preço oficial” do container entre China e Brasil. O valor cotado hoje reflete, em tempo real, a disputa por um recurso finito: espaço a bordo dos navios que cruzam o Pacífico e contornam a África ou passam pelo Panamá até os portos brasileiros.
Quando o número de empresas querendo embarcar carga cresce mais rápido do que a capacidade disponível nos navios, o preço sobe. Quando a demanda esfria ou novos navios entram em operação, o preço cai. Esse mecanismo é sensível a qualquer desequilíbrio: falta de contêineres vazios nos portos certos, congestionamento, alta do combustível, decisões dos próprios armadores e, claro, sazonalidade.
Em 2026, esse efeito ficou visível de forma extrema: o mercado começou o ano com contêineres de 40 pés próximos de US$ 1.000 na rota China–Brasil e, em determinados períodos, viu esse valor ultrapassar os US$ 5.000, com picos ainda mais altos em rotas e momentos específicos. Não foi um evento isolado, mas o resultado de vários fatores de oferta e demanda se somando ao mesmo tempo.
Por que o segundo semestre concentra a pressão
Se você observar o histórico de fretes da China, um padrão se repete ano após ano: os preços tendem a subir a partir de agosto e permanecem pressionados até o fim do ano. Três movimentos explicam essa concentração de demanda:
- O varejo do hemisfério norte forma estoque.Entre agosto e outubro, grandes redes de varejo dos Estados Unidos e da Europa antecipam pedidos para ter mercadoria em loja a tempo da Black Friday, do Thanksgiving e do Natal. Isso significa milhares de containers extras disputando espaço nos mesmos navios, na mesma janela de tempo.
- As fábricas chinesas correm contra o calendário do Ano Novo Chinês.Durante o feriado, que costuma cair entre janeiro e fevereiro, boa parte da produção industrial chinesa para por até duas semanas. Isso cria uma corrida nos meses anteriores: exportadores e importadores tentam embarcar o máximo possível antes que as fábricas fechem, concentrando ainda mais demanda no fim do ano.
- As armadoras ajustam a oferta para sustentar o preço. Em vez de simplesmente aumentar a capacidade disponível, é comum que as companhias marítimas pratiquem os chamados blank sailings— o cancelamento programado de escalas. Isso reduz artificialmente a oferta de espaço em um momento de alta demanda, o que empurra os preços ainda mais para cima.
O resultado dessa combinação é previsível: mais empresas competindo pelos mesmos navios, ao mesmo tempo em que a oferta de espaço é controlada com mais rigor. Analistas de mercado costumam apontar agosto a outubro como o período mais crítico, com algum alívio esperado depois que o pico sazonal passa ,embora fatores extraordinários, como tensões geopolíticas ou oscilações no preço do petróleo, possam alterar esse comportamento em qualquer mês do ano.





